18 de agosto de 2022

Eu Não Ligo

Quem liga para o que os outros dizem?

A jornada da aceitação

Você terminou a faculdade aos trancos e barrancos, com mais horas de bar do que em sala de aula.

Seu tio Juvenal um pouco antes de se aposentar, confiante no seu potencial, (na verdade ele queria que você se tornasse algo útil e não o encosto que prometia ser) pediu para um amigo empresário uma vaga para o sobrinho”muito inteligente e que acabou de se formar”.

Infelizmente depois de três meses de trabalho você foi expulso da empresa a pontapés partiu em busca de novos desafios, pois a sua visão futurista não foi bem compreendida pelos seus superiores, demais funcionários e clientes, ou seja, todo mundo exceto você.

Preocupado com o seu futuro seu pai deu algum dinheiro pra abrir um negócio, na esperança que você se tornasse algo de útil para o mundo mas você falhou. Miseravelmente! Culpa dos seus funcionários que não sabiam lidar com responsabilidades e não conseguiram manter a empresa funcionando no curto período de 8 meses que você passou fora planejando o crescimento. Você não tem culpa de ter gastado boa parte do dinheiro no Caribe, Polinésia, Nova Zelândia, Canadá e Europa e, quando voltou, descobriu que os seus funcionários depois de 3 meses abandonaram o emprego, só porque você esqueceu de instruir o banco para pagar os salários (não que houvesse sobrado algum dinheiro para isso). Ingratos!

Agora nem a família responde mais as suas mensagens, afinal você é a pessoa que depois da falência, empregou todo dinheiro da aposentadoria do Tio Juvenal naquela arapuca ou pirâmide empresa onde as pessoas tem de indicar mais oito pessoas que tem de indicar mais oito pessoas e assim por diante até que toda a população mundial esteja embaixo do “seu ramo” trabalhando por você que vai usufruir de uma aposentadoria bilionária sem precisar trabalhar. Era lucro garantido!

Aliás, convenhamos que você nunca foi muito chegado neste tal de trabalho e com o tempo não havia mais gente pra indicar e, por consequência, o tio Juvenal vai ter de procurar outra fonte de renda. Mas a culpa não é sua, “a culpa é do mercado e das pessoas de mente pequena”.

Antes que você resolva radicalizar e fazer uma coisa que vai contra seus princípios que é TRABALHAR realizar tarefas monótonas, eu vou te ajudar!

A sua esperança é a nobre profissão que veio tornar as pessoas mais produtivas o coaching, mas para saber se você está apto a se tornar um Coach de projeção, precisamos fazer um checklist:

  • Vontade de trabalhar – Isso não precisa. Afinal se você quisesse trabalhar não estaria se metendo nisso.
  • Experiência em negócios – Isso também não precisa. Um Coach, inclusive, sempre tem no currículo algumas falências, mas vamos retomar o assunto mais tarde.
  • Casos de sucesso. Tenha alguns, eles não precisam ser seus, até porque se fossem seus você não precisaria ser Coach, não é mesmo? Outra coisa. Chame de Cases de sucesso, porque o inglês é a língua primária do Coach. Quanto mais você usar palavras em inglês misturadas com o português, mais respeito você consegue e mais as pessoas pensam que o que você está falando é sério.
  • Marketing pessoal. Um bom Coach sabe vender o peixe, até porque o peixe é invisível, então é a hora de usar tudo aquilo que você aprendeu em todos os anos na faculdade. Bater papo e contar vantagem. As pessoas só vão te seguir se pensarem que você é um gênio.
  • Ostentação – Afinal, você é um sucesso! Não deixe ninguém ver você chegar do metrô, descer do ônibus ou pedir um uber. E se for pego com a boca na botija, diga que você teve de parar de andar de carro porque teve um acidente esquiando em Aspem e o médico recomendou longas caminhadas.

A Jornada do conhecimento

Agora é a hora da verdade. O momento em que separamos os verdadeiros coaches das pessoas comuns.

A primeira coisa que você vai precisar fazer é uma pesquisa intensa. E não venha com este papo de que ler é chato, até porque você não vai precisar ler nada. Procure vídeos de coachs de garbo e elegância no Youtube.

Anote tudo que eles disserem, faça uma lista de todas frases de efeito, todas as histórias e experiências. Não se preocupe com direitos autorais, até porque as histórias não são deles também.

Peça para a tia Geralda deixar você ler as mensagens do grupo das velhinhas no Whatsapp. Se você não tiver uma tia Geralda (ou se ela continuar com raiva de você por causa do que você aprontou com o tio Juvenal) pegue alguns livros de auto ajuda e separe algumas frases. Dá na mesma.

Agora você está pronto. Monte a sua palestra e deixe bem claro para os seus treinandos que você está reprogramando o DNA deles para o sucesso, o que em uma abordagem quântica da semântica interativa das interações interpessoais pode ser tudo, inclusive nada. Agora substitua 80% de tudo que você falar por palavras em inglês.

Não se preocupe com o fato de acharem “parecido” o seu discurso com o de outros coachs. Diga que isto é uma abordagem de concepts recycling usada para o empowerment do background. Traduzindo: “cópia descarada de vivências que eu não tive para justificar coisas que eu não sei”.

A Jornada do sucesso

“Ao longo de minha extensa carreira, sob o meu mentoring vi diversas pessoas se livrarem da ilusão do salário e assumir um engagement com o sucesso”. Assim começa um discurso de peso. Não se preocupe com o inglês tosco porque quem acredita em coach provavelmente nem português deve saber falar direito.

Não se preocupe, ninguém vai te chamar de mentiroso ou lembrar dos “pequenos” acidentes de percurso que você causou viveu. Tio juvenal e tia Geralda querem manter quilômetros de distância de você, e seu pai deve estar com Alzheimer pois insiste em dizer que não lembra de ter filho nenhum.

E é isso. Se você tiver sorte vai conseguir pessoas que vão pagar para você fazer delas “um sucesso igual a você”, se tiver muita sorte vai conseguir um editor que vai publicar um livro estilo “manual de instruções para a fama e o sucesso” e se tirar a sorte grande, o RH de alguma grande empresa vai contratar você para fazer discursos motivacionais com prazo de validade de um dia.

É isso por enquanto, e lembre-se que o sucesso está em seu DNA

O personagem deste texto é uma obra de ficção. Se você se identificar com ela ou com qualquer uma das situações aqui descritas… Pobres tio Juvenal e tia Geralda...